De Cinfães 
Para Lisboa 
Vou neste texto narrar (e reflectir sobre) a experiência de mobilidade da minha mãe aos catorze anos de idade, de Cinfães do Douro para Lisboa. O que causou esta experiência de mobilidade foi o facto de, aos sete anos, ter perdido o pai por causa da tuberculose. A família era muito pobre e muito numerosa, com dez irmãos, e vivia do que a terra dava, mas devido à doença prolongada do pai, tiveram que ir vendendo as terras para poderem comprar os medicamentos. A pobreza e a fome era tanta que, aos catorze anos, teve que vir para Lisboa servir.
Segundo minha mãe a viagem foi longa, suja e demorada, pois o transporte era o comboio a carvão, e demorava uma eternidade a chegar a Lisboa. As expectativas eram grandes, pois tinha ouvido falar de casos de outras raparigas que tinham encontrado uma vida melhor. As diferenças encontradas foram enormes, pois estava habituada a um meio rural, com meia dúzia de casas e algumas juntas de bois, e aqui deparou-se com um meio urbano, cheio de gente, ruas largas, comércio, hotelaria e muitos automóveis, que no meio rural praticamente não existiam. Ela transitou de um contexto rural, de vida árdua no campo, para um contexto urbano onde seria empregada doméstica num palacete, no bairro de Santa Catarina, pertença de uma família da alta sociedade.
A mudança provocada pela experiência foi grande, pois ao passo que lá tinha que trabalhar de sol a sol na agricultura e à noite fazer a lida da casa e tratar dos irmãos, aqui tinha os seus períodos de descanso, apesar de trabalhar bastante. A sua rotina diária começou a ser outra. Tinha que ir ao mercado fazer compras e tratar da alimentação da casa. Foi em Lisboa que começou a socializar-se com outras colegas de profissão, a onde criou amizades e começou a fumar, a ter outros hábitos de vestir, os vestidos de chita, a forma de falar, a troca dos b pelos v, e a forma como conseguiu adaptar-se à vida urbana.
Se minha mãe não tivesse a sorte de vir servir para Lisboa, possivelmente nunca deixaria de ter uma vida mísera e pobre, continuaria analfabeta, pois foi aqui que aprendeu a ler e a escrever, a onde teve os seus primeiros sapatos, foi aqui que teve a possibilidade de constituir família e ter dois filhos e de ter vivido uma vida condigna e desafogada.